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Um Tetracampeão

De fato...

Fluminense, um tetracampeão de fato

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O Botafogo de Futebol e Regatas estreou no campeonato estadual de 2016 utilizando em sua camisa um brasão que vangloria o fato de o alvinegro ser o único clube do Rio de Janeiro tetracampeão estadual. O fato evidencia a falta de conhecimento histórico do marketing do clube, ou então, mais uma tentativa de subverter a história, forçando uma lenda urbana, que repetida erroneamente acabará por se tornar verdade para os que desconhecem os fatos.

Em 1932, o Botafogo, denominado Botafogo Football Club, conquistou o campeonato estadual de forma legítima. Torneio que contava com Flamengo, vice-campeão, Fluminense, Vasco da Gama, e também, Bangu e América. Todos os clubes mais tradicionais da cidade. No mesmo ano, uma discussão sobre a profissionalização do futebol, gerou um rompimento na relação entre eles.  O Fluminense liderava um movimento pelo fim da hipocrisia que assolava alguns clubes até então, remunerando às escondidas seus jogadores, que treinavam durante a semana, enquanto outros clubes levavam desvantagem por possuírem jogadores que eram amadores. O clube das Laranjeiras exigia o fim do “amadorismo marrom”, dando uma profissão aos jogadores, que deveriam ser remunerados e amparados pela lei.

Em janeiro de 1933, uma comissão formada pelos principais times filiados a AMEA (Associação Metropolitana de Esportes Athléticos): Fluminense, Flamengo, Vasco, Botafogo, América, Bangu e São Cristóvão, tornou público o estatuto da futura liga de profissionais. Pouco depois, os dirigentes de Vasco, Flamengo, São Cristóvão e Botafogo voltam atrás e na sede do alvinegro firmam a posição de manterem-se amadores. Três dias depois, mais uma reviravolta, o conselho deliberativo do Vasco da Gama contrariou seu presidente e aderiu ao processo de profissionalismo.

No dia 23 de janeiro de 1933, em reunião realizada na sede do Fluminense Football Club, foi fundada a Liga Carioca de Futebol Profissional, que contava com Fluminense, América, Bangu e Vasco. No dia 13 de fevereiro, os clubes filiados a AMEA decidiram por desligar os clubes que fundaram a liga profissional. O que os obriga a fundarem um campeonato estadual paralelo, chamado de Campeonato da Liga Profissional (LCF). Durante a disputa simultânea de ambos os campeonatos, o Flamengo, discordando do modelo de premiação de jogadores e denunciando que alguns clubes remuneravam seus jogadores, abandonou a liga amadora, juntando-se à liga profissional. O mesmo ocorreu com São Cristóvão e Carioca. O Bangu conquistou o campeonato estadual da LCF, que contava com Flamengo, Fluminense e Vasco da Gama, enquanto o Botafogo conquistou o título pela AMEA, sem os principais clubes do Rio de Janeiro.

Em 1934, a temática se manteve, dois campeonatos paralelos em disputa, e o Botafogo foi novamente campeão pela AMEA, mais uma vez sem contar com a presença dos outros clubes tradicionais. O Vasco da Gama conquistou o estadual pela LCF. Ao final do ano, Botafogo, Vasco, Bangu, São Cristóvão Andaraí, Olaria, Carioca e Madureira se uniram para fundar a Federação Metropolitana de Desportos (FMD) que incorporou a AMEA e seus campeonatos. Em 1935, os demais clubes filiados à Liga profissional se recusaram a fazer parte da FMD, que não exigia profissionalismo de seus clubes e novamente foram disputados dois campeonatos paralelos, o da FMD, que teve o Botafogo campeão, agora com a presença do Vasco da Gama e o da LCF conquistado pelo América, com a presença de Fluminense e Flamengo.

O Botafogo se diz tetracampeão estadual vencendo quatro títulos consecutivos, em duas federações diferentes, sem as principais forças do Rio de Janeiro, com regras e adversários distintos. Vale ainda ressaltar, que os títulos foram conquistados pelo Botafogo Football Club, fundado em 1904, e não o Botafogo de Futebol e Regatas, o clube que hoje ostenta o brasão de tetracampeão, já que esse foi fundado em 1942, quando o clube de futebol se fundiu ao Club de Regatas do Botafogo, fundado em 1894.

Diferente do que ocorreu com o alvinegro, o Fluminense Football Club, que não nasceu de uma fusão, e sim fundado para a prática do futebol em 1902, conquistou os campeonatos estaduais de 1906,1907, 1908 (invicto) e 1909 (invicto). Todos com a presença do Botafogo, que inclusive divide com o Tricolor o título de 1907, de forma injusta e arbitrária. O torneio terminou com Botafogo e Fluminense na mesma colocação. O Tricolor, no entanto, tinha saldo de gols maior, inclusive no confronto entre eles e a ata da resolução da Liga Metropolitana de Sports Athletico (LMSA), de 1º de maio de 1907 deixava claro:

“Fica resolvido que na presente estação, quando se der empate no final dos campeonatos, em vez de ser jogado o desempate, tira-se a média dos goals entre os empatados, sendo declarado campeão o que melhor média apresentar.”

O Botafogo exigia uma partida de desempate, o que contrariava o estatuto. O Fluminense, obviamente, se recusou a disputar um novo confronto declarando-se o campeão de fato e de direito. Em 28 de outubro, um dia após o último jogo do campeonato, foi realizada uma Assembleia Extraordinária, na qual a diretoria da LMSA declarou o Fluminense campeão, pelo critério de desempate do goal average (média de gols). Em 1996, em uma manobra junto à federação do Rio de Janeiro, o Botafogo conseguiu que o presidente da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FFERJ), Eduardo Viana, desafeto do Tricolor, instituísse que ambos os clubes fossem declarados campeões, massageando o ego dos alvinegros, ainda que seu próprio hino diga claramente “Botafogo… Botafogo, campeão desde 1910”.

Que cada clube vanglorie seus feitos, sem que para isso seja preciso ignorar a história. E para a história, o Fluminense é um tetracampeão, de fato.

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Rodrigo Barros

Escritor fluminense, é autor de livros, contos e poemas. Desenvolve em cima dos mais diversos temas e tem por hábito participar de antologias de contos com outros autores. É historiador e lançou recentemente o livro "De Oswaldo Gomes a Fred: A história do Fluminense Football Club no centenário da Seleção Brasileira".