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O dia em que o Fluminense trouxe Cruyff ao Brasil

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Hendrik Johannes “Johan” Cruyff foi considerado por três anos seguidos o melhor jogador Europeu. É apontado como um dos melhores jogadores da história, sendo o melhor futebolista neerlandês de todos os tempos.  Líder da seleção holandesa de 1974, conhecida como “o carrossel holandês” ou ainda “laranja mecânica”, eliminou o Brasil da Copa do Mundo, ao dar um passe para que Neeskens marcasse o primeiro gol holandês e marcando ele mesmo o segundo.  A seleção Brasileira tinha craques como Marinho Chagas, Rivellino e Jairzinho.

Dois anos depois de ter sido o carrasco brasileiro na Copa do Mundo, o Fluminense conquistava o bicampeonato estadual com a “Máquina Tricolor”. O então presidente, Francisco Horta, sonhava em trazer Johan Cruyff para sua constelação, tentando concretizar o sonho do tricampeonato. Inicialmente, o objetivo era fazer com que o craque atuasse em três amistosos com a camisa Tricolor, mas os planos mudaram com o fim de seu contrato com o Barcelona.

A ideia havia surgido quando o Fluminense foi disputar o Torneio de Paris, vencido pelo Valencia em 1975. O torneio amistoso foi um quadrangular entre o Tricolor, o Paris Saint-Germain, da França, o Valencia, da Espanha e o Sporting, de Portugal. Nesse período, Cruyff havia sido emprestado pelo Barcelona ao clube francês para a realização de duas partidas. O Paris Saint-Germain havia sido fundado cinco anos antes e Horta logo pensou, se Cruyff podia atuar por um clube inexpressivo, poderia vestir também o manto tricolor. A título de curiosidade, o Fluminense conquistou Torneio de Paris no ano seguinte, em 1976.

Horta contou ao jornal O Globo, sua intenção para os amistosos:

Eu ainda não tive nenhum contato pessoal com ele aqui, mas fiquei realmente entusiasmado com o seu futebol. Vou lhe oferecer trinta mil dólares para que faça três partidas pelo Fluminense no ano que vem. E tenho quase certeza que a proposta será aceita, pois as datas serão escolhidas com muita antecedência, para que não haja perigo de ter algum compromisso pelo Barcelona.

O jogador se mostrou motivado com a possibilidade de atuar pelo Fluminense no ano seguinte nos amistosos, ainda no vestiário após a partida contra o Sporting:

No momento estou cansadíssimo e venho de uma temporada muito longa. Soube que o Barcelona recebeu várias propostas para eu ir jogar lá, mas não sou eu quem decide. Quanto a atuar em clube brasileiro em alguns amistosos, como estou fazendo aqui, ainda não fui procurado, mas não é uma má ideia. Vamos ver.

Em 1976, com o apoio da Rede Globo e da Air France, o Fluminense trouxe para o Brasil o jogador do Barcelona, por Cr$ 600 mil (cruzeiros), onze dias de férias e a promessa de dois amistosos, um em São Paulo e outro no Rio de Janeiro, jogando por um combinado estrangeiro contra um combinado de jogadores dos principais times de ambos os estados. O objetivo era que o jogador se apaixonasse pelo Rio de Janeiro e jogasse ao lado de Rivellino no campeonato do ano seguinte.

Um dia antes da chegada do craque, o presidente Francisco Horta contou seus planos para os jornais:

Um investimento impossível por causa dos compromissos com o pagamento dos passes do Rivellino e do Paulo César (Caju). Por isso só agora comecei a pensar em trazê-lo de verdade. Sei que ele terá passe livre em abril de 77 e, se gostar do Rio, será muito mais fácil chegarmos a um acordo.

Assim que chegou ao aeroporto internacional do Rio de Janeiro, acompanhado da esposa, dos sogros e de dois casais de amigos, Cruyff atendeu aos fãs e aos repórteres da Rede Globo, confirmando que cogitava atuar no futebol brasileiro:

 Sou um profissional do futebol e é dele que eu vivo. Se receber uma proposta que compense minha saída da Europa, onde além de jogar tenho inúmeros negócios e acertos publicitários, não terei a menor dúvida em vir para o Brasil.

O Fluminense alugou quatro limusines para levar toda a comitiva para o hotel, mas os planos começaram a dar errado logo na saída do Galeão. Impressionados com o tamanho da Favela da Maré e com o mau cheiro do Gasômetro, em São Cristóvão, decidiram que a cidade não era para eles. “Se isto é o Rio quero voltar para Barcelona”, disse a esposa do jogador, segundo relato do Jornal do Brasil, que acompanhou no carro a ida de Cruyff para o hotel. A má impressão da cidade diminuiu no restante do trajeto, Copacabana, Ipanema e Leblon. O motorista evitou passar pela Favela da Rocinha, indo pela Avenida Niemeyer, chegando a São Conrado pela orla, onde todos se hospedariam no Hotel Nacional, que havia oferecido diárias grátis nas suítes presidenciais a todos, com vista para o mar. O hotel não agradou, queriam banheiras e não apenas chuveiros, reclamaram que os quartos tinham vista para andaimes de uma obra vizinha e afirmaram que São Conrado não era o Rio de Janeiro que conheciam, desejavam ficar em Copacabana. Deixaram o hotel desenhado pelo tricolor Oscar Niemeyer e foram se hospedar no Hotel Meridien, passando o dia na praia.

Durante a noite, foram jantar com Francisco Horta, na churrascaria Marius Degustare, famosa na Zona Sul do Rio de Janeiro. Sendo levados em seguira para um show de samba em Ipanema, com bateria e mulatas. No dia seguinte, conheceram a sede do Fluminense, onde assistiram no Salão Nobre, a um show de samba do Sargentelli, com mais mulatas e batucadas.

Cruyff viajou para São Paulo para disputar o primeiro amistoso. Inicialmente sua comitiva ficaria hospedada alguns dias no Guarujá, mas as reservas não foram feitas com antecedência e o jogador criticou a falta de organização da excursão, mas confirmou sua intenção de atuar no Brasil assim que chegou à Terra da Garoa. Treinou no Parque Antártica, estádio do Palmeiras, e marcou três gols no coletivo. No dia seguinte, quase não compareceu ao amistoso no Morumbi, estádio do São Paulo, pois sua esposa teve uma crise renal. Contornada a situação, Cruyff foi ao Morumbi no dia 02 de Junho para atuar pela seleção de estrangeiros, às 21h com transmissão da TV Globo, marcando um dos gols da partida, que terminou empatada em 1 a 1, o gol brasileiro foi marcado por Toninho, lateral do Flamengo. Quatro dias depois, Cruyff finalmente atuou no Maracanã. O jogador atuou pela Seleção Estrangeira sendo derrotado pelos brasileiros por 2 a 1. Os gols brasileiros foram marcados por Rodrigues Neto, lateral esquerdo do Fluminense e Ziza, ponta esquerda do Botafogo. O gol da seleção estrangeira foi marcado pelo argentino Doval, atacante do Fluminense.

O jogador holandês deixou o Brasil na mesma noite e nunca mais voltou. Precisando terminar sua gestão com dinheiro em caixa, Francisco Horta sequer fez uma proposta pelo jogador. Cruyff renovou com o Barcelona, onde ficou até 1978, e o Fluminense não só não contou com o camisa 14 da seleção holandesa, como também viu o sonho do tricampeonato virar pó com o título ficando em São Januário, após final decidida nos pênaltis entre Flamengo e Vasco da Gama.

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Rodrigo Barros

Escritor fluminense, é autor de livros, contos e poemas. Desenvolve em cima dos mais diversos temas e tem por hábito participar de antologias de contos com outros autores. É historiador e lançou recentemente o livro "De Oswaldo Gomes a Fred: A história do Fluminense Football Club no centenário da Seleção Brasileira".