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Muito além do que marketing esportivo, é preciso cidadania

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O Fluminense Football Club atuou de luto no clássico contra o Vasco da Gama na última quarta-feira. O luto foi decretado em combate à violência contra a mulher. A partida ocorreu na véspera do Dia Internacional da Mulher e chamou a atenção de torcedores e de jornalistas, que não só divulgaram em suas páginas na internet e jornais impressos, como também comentaram em diversos momentos durante a transmissão da partida.

A campanha foi divulgada pelas redes sociais do clube e a ação contra o feminicídio foi destaque até mesmo na imprensa internacional, como no Mundo Deportivo, da Espanha, El Universal, do México e o Ovación Deportes, da Venezuela. Em nota oficial, o clube se manifestou da seguinte forma:

A cada 90 minutos uma mulher é assassinada no Brasil (IPEA). Entraremos em campo contra o Vasco sabendo que, ao final do jogo, haverá mais uma vítima fatal no país. Mais do que lamentar este número inaceitável, o Fluminense Football Club entende a importância de dar visibilidade ao problema. Por isso jogará de luto no clássico, na esperança de que o protesto silencioso seja um grito contra o feminicídio.

Já é passada a hora de acabar com situações deste tipo em nossa sociedade. Denunciar a violência contra a mulher, ligando 180, é apenas o primeiro passo. Nosso objetivo é que estejamos todos cada vez mais engajados nessa luta. Hoje, amanhã no Dia Internacional da Mulher e sempre.

Não há dúvidas de que a campanha é de extrema importância e o pronunciamento enche de orgulho todo e qualquer torcedor tricolor. Isso pode ser visto pelas redes sociais, onde as postagens receberam não só elogios como também foram compartilhadas exaustivamente. Entretanto, ainda que a ação, ou até mesmo protesto, tenha sido importante para exaltar a “marca” Fluminense, precisamos ressaltar que a mesma deve servir também para reflexão. A sociedade precisa mudar e se queremos ser o baluarte desta ação, a mudança precisa ser de dentro para fora.

As mulheres são um pilar de nossa história. O termo “torcedor” surgiu justamente através das nossas mulheres fluminenses e mais do que campanhas de marketing, que deixam a imagem do clube “mais bonita”, é preciso cidadania. Inclusão e respeito se fazem quando a linha de produtos oficiais do clube atende homens e mulheres na mesma proporção. É verdade que até pouco tempo sequer tínhamos uma linha feminina da camisa do Fluminense, mas é preciso ir além do básico.

Para que haja inclusão, as mulheres precisam ser respeitadas também, e principalmente, nas arquibancadas. Elas não precisam conviver com músicas com trechos como “vamos beber cerveja, chupar boceta e torcer pro tricolor”, que além de ser de um mau gosto tremendo, é ofensiva e uma baixaria desnecessária. Pior que isso, é ver torcedoras sendo xingadas e ofendidas, não só nos estádios como também nas redes sociais, por criticarem esse despropósito.

O Fluminense que faz uma bela ação como essa, do luto ao feminicídio, não pode ser o mesmo clube que sequer se manifesta quando um de seus diretores, que também é um dos principais articuladores da gestão e líder do grupo político que apoia o presidente, ofende uma torcedora e sócia, dizendo que o que ela precisa é “caçar piroca”, porque lhe falta controle emocional e intelecto para lidar com as críticas, mais do que justas, de uma torcedora. É preciso mais do marketing, é preciso cidadania.

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Rodrigo Barros

Escritor fluminense, é autor de livros, contos e poemas. Desenvolve em cima dos mais diversos temas e tem por hábito participar de antologias de contos com outros autores. É historiador e lançou recentemente o livro "De Oswaldo Gomes a Fred: A história do Fluminense Football Club no centenário da Seleção Brasileira".